O
que move o partido-imprensa
8/1/2012 12:45, Gilson Caroni Filho - do Rio de Janeiro
12
Desde a formação da Bolsa de Londres, há três séculos
de capitalismo, o sistema arregimenta, a soldo de oficialato, espirra-tintas
dispostos a defendê-lo com fidelidade canina. A tradição
se mantém na imprensa atual
A leitura diária dos jornais pode ser um interessante exercício
de sociologia política se tomarmos os conteúdos dos editoriais
e das principais colunas pelo que de fato são: a tradução
ideológica dos interesses do capital financeiro, a partitura das prioridades
do mercado. O que lemos é a propagação, através
dos principais órgãos de imprensa, das políticas neoliberais
recomendadas pelas grandes organizações econômicas internacionais
que usam e abusam do crédito, das estatísticas e da autoridade
que ainda lhes resta: o Banco Mundial (Bird), o Fundo Monetário Internacional
(FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC). É a
eles, além das simplificações elaboradas pelas agências
de classificação de risco, que prestam vassalagem as editorias
de política e economia da grande mídia corporativa.
Claramente partidarizado, o jornalismo brasileiro pratica a legitimação
adulatória de uma nova ditadura, onde a política não deve
ser nada além do palco de um pseudo-debate entre partidos que exageram
a dimensão das pequenas diferenças que os distinguem para melhor
dissimular a enormidade das proibições e submissões que
os une. É neste contexto, que visa à produção do
desencanto político-eleitoral, que deve ser visto o exercício
da desqualificação dos atores políticos e do Estado. Até 2002,
era fina a sintonia entre essa prática editorial e o consórcio
encastelado nas estruturas de poder. O discurso “modernizante” pretendia – e
ainda pretende – substituir o “arcaísmo” do fazer
político pela “eficiência” do economicamente correto.
Mas qual o perigo do Estado para o partido-imprensa? Em que ele ameaça
suas formulações programáticas e seus interesses econômicos?
O Estado não é uma realidade externa ao homem, alheia à sua
vida, apartada do seu destino. E não o pode ser porque ele é uma
criação humana, um produto da sociedade em que os homens se congregam.
Mesmo quando ele agencia os interesses de uma só classe, como nas sociedades
capitalistas, ainda aí o Estado não se aliena dos interesses
das demais categorias sociais.
O reconhecimento dos direitos humanos, embora seja um reconhecimento formal
pelo Estado burguês, prova que ele não pode ser uma instituição
inteiramente ligada aos membros da classe dominante. O grau maior ou menor
da sensibilidade social do Estado depende da consciência humana de quem
o encarna. É vista nesta perspectiva que se trava a luta pela hegemonia.
De um lado os que querem um Estado ampliado no curso de uma democracia progressiva.
De outro os que só o concebem na sua dimensão meramente repressiva;
braço armado da segurança e da propriedade.
O partido-imprensa abomina os movimentos sociais, os sindicatos (que não
devem ter senão uma representatividade corporativa), a nação,
antevista como ante-câmara do nacionalismo, e o povo sempre embriagado
de populismo. Repele tudo que represente um obstáculo à livre-iniciativa, à desregulamentação
e às privatizações. Aprendeu que a expansão capitalista
só é possível baseada em “ganhos de eficiência”,
com desemprego em grande escala e com redução dos custos indiretos
de segurança social, através de reduções fiscais.
Quando lemos os vitupérios dos seus principais articulistas contra políticas
públicas como Bolsa Família, ProUni e Plano de Erradicação
da Pobreza, dentre outros, temos que levar em conta que trabalham como quadros
orgânicos de uma política fundamentalista que, de 1994 a 2002,
implementou radical mecanismo de decadência auto-sustentada, caracterizada
por crescentes dívidas, desemprego e anemia da atividade econômica.
Como arautos de uma ordem excludente e ventríloquos da injustiça,
em nome de um suposto discurso da competência , endossaram a alienação
de quase todo patrimônio público, propagando a mais desmoralizante
e sistemática ofensiva contra a cultura cívica do país.
Não fizeram- e fazem- apenas o serviço sujo para os que assinam
os cheques, reestruturam e demitem. São intelectuais orgânicos
do totalitarismo financeiro, têm com ele uma relação simbiótica.
E é assim que devem ser compreendidos: como agentes de uma lógica
transversa.
Merval Pereira, Miriam Leitão, Sardenberg, Eliane Catanhede, Dora Kramer
e outros mais necessitam ser analisados sob essa perspectiva. É ela
que molda a ética e o profissionalismo de todos eles. Sem mais nem menos.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas
Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e
colaborador do Correio do Brasil e do Jornal do Brasil.
Fonte: Correio do Brasil, 09/01/12